O CORPO EM MOVIMENTO, UMA ESTÉTICA DA DANÇA

O CORPO EM MOVIMENTO, UMA ESTÉTICA DA DANÇA

Postado por Mariela Rodriguez Rech | 20 de maio de 2018

O corpo em movimento, uma estética da dança
“Se eu pudesse dizer o que queria dizer,

Não haveria razão para dançar … ”

Isadora Duncan

A ligação entre o corpo e a dança, o corpo e o movimento, pode ser pensada de diferentes ângulos e, sem dúvida, haveria muitas perguntas. Perguntas que acompanharam a minha prática clínica, bem como a minha realização com dança.

Sustento que a Arte, em qualquer de suas manifestações, é um veículo de intenções variadas, mas também contém um desejo de transcender os limites humanos, ir um pouco além da existência efêmera e limitada que encerra a existência. Podemos pensar que a sua função é abrir uma fenda que nos permita vislumbrar algo da ordem do indecifrável. Arte em qualquer de suas manifestações, é um dar para ver …

Está lendo uma história que, desde os tempos antigos, permitiu à humanidade organizar sua existência. Proponho pensar na dança como uma história, como um texto escrito.

A POÉTICA DO MOVIMENTO

Tomando a dança, tem a ver com a opção por uma Arte do movimento, como forma de expressão artística, como uma forma de dizer, com sua própria gramática que a torna única. A dança em seu caráter mágico, lúdico e comunicativo é uma forma de discurso. Do lugar dos analistas, não podemos parar de pensar nisso em relação a um corpo e a uma história única que deixou marcas nele. Esta Arte do movimento, é lida através do corpo, o veículo principal de quem dança.

Muitas perguntas me acompanharam neste trabalho: O que o dançarino cobre em sua exibição ritual? O que habita um movimento? Que corpo dança? O que é dito em uma dança? Enigmas … perguntas … silêncios … nem tudo terá uma resposta. Sim, uma abordagem … um flash.

O movimento acompanha a existência humana desde sempre, o universo está em constante movimento; a vida é. Nós somos seres em movimento.

A dança foi o primeiro gesto humano. Pascal Quignard dirá que esses movimentos nos remetem à vida intrauterina, ao momento da entrega e àquela saída abrupta que envolve lidar com a gravidade. A partir daí, o Sujeito é impelido para o movimento, antes da palavra. O dançarino tem que lidar com a gravidade, com torcer esse destino e fazer um mundo marcado por outros passos, por outros movimentos. Pensar no corpo na dança é pensar em um corpo que vai além dos marcos biológicos. O corpo que dança é um corpo preso pela língua e pela infinidade de significantes; é o corpo do Discurso … que metaforicamente revela os nós da estrutura subjetiva com a qual o sujeito se confronta e arma sua vida. A dança é saber como fazer essas marcas que nós tecemos para habitar o universo da linguagem.

Hoje, a época tem organizado que os corpos mascarados sejam habitados por múltiplos dispositivos tecnológicos; nós atendemos a corpos com paredes, sintonizados, cheios de próteses; corpos venerados e artificiais quase pós-humanos. Que paradoxalmente, quanto mais se gabam desses corpos gloriosos, maior a precarização subjetiva.

Tentativas repetitivas de criar outras formas de habitá-lo são variadas. Através de uma análise, que permite agitar os significantes que vêm do Outro e criar um caminho único e único; talvez dança, poderia ser uma maneira possível de habitar o singular e nos reconciliar de um modo mais benevolente com outro corpo … permitindo que esse corpo de desejo desencadeie, pelo menos um pouco, as marcas do prazer autoerótico? Seria como remover o espartilho que o sujeitou de maneira sofrida.

Dançar … é: fluir, esticar … quebrar a solidez … é tensão, é uma mise-en-scène do jogo constante do Inter entre o pesado e a luz … na dança os pés sulcam a terra. David Zambrano, criador do vôo baixo, dirá que aquele que dança escreve com os pés. Está marcando com o corpo uma fissura. É desatar os nós reificados que se emaranharam ao longo da história. Dançar é alojar o Desejo.

O CORPO…

Com que corpo nós dançamos? Você dança com aquele corpo redescoberto e descobre … com aquele organismo atravessado pela letra; com aquele corpo que rompe os laços quando se desdobra, se move, inclina, rola. O que leva um corpo a se mover? O que move um corpo? O ímpeto de ocupar o indescritível … fazer com que silencioso e silenciado … Art.

A dança é para despertar um corpo rígido, dar rédea livre ao turbilhão que não foi transmitido pela palavra. A dança é um projeto lúdico com o próprio corpo.

Na dança não há esquemas, protótipos ou regras. E é do vácuo … do nada que esse movimento é criado. A figura dançante está armada. Sim, há técnica que acompanha o dançarino para posicionar seu corpo a partir de sua singularidade, criando um campo no qual ele desdobra sua própria poética.

O corpo dançante altera a gravidade com giros, quedas, deslocamentos, rolos que compõem um outro corpo, que em seu enunciado transmite uma retórica imersa em signos e metáforas.

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A DANÇA: UM CORPO COM OUTROS .

Na cena, podemos ver que a dança é uma arte efêmera: o ato se dissolve em um tempo e um espaço, mas persiste na memória do corpo e dos outros.

A dança tem o desejo de transcender o corpo limitado; como um feitiço: na cena em que o corpo mortal é conjugado com aquele corpo divino que transcende. Esse corpo singular entra em contato com os outros; da psicanálise, já sabemos que um corpo não é tal, mas está com os outros. Daí a comunidade de dançarinos, bailarinos que se desdobram ao ritmo, harmonia e movimento. Esse olhar e são olhados.

Quem dança, quem dança, faz um discurso poético. Habita um corpo recuperado, intervém pelo desejo e exibe uma paixão: o desejo de dançar. Eu desejo que a dançarina mostre sua singularidade atacando a gravidade, perfurando-a, perfurando-a, para não ser justa, aprisionada nela.

Quem dança faz uma escrita com seu corpo.

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